Jacinda Ardern, Primeira Ministra da Nova Zelândia

A Primeira Ministra da Nova Zelândia ocupou os holofotes dos noticiários internacionais pela segunda vez por conta de sua forma de administrar momentos de crise, a primeira em virtude do atentado às mesquitas de Christchurch e agora por conta do enfrentamento à pandemia do Coronavírus.

A liderança feminina está em destaque em tempos de Coronavírus e temos muito a comemorar. Por conta da equidade de gênero e também por conta das pautas que são apresentadas e defendidas, bem como da representatividade para lidar com as políticas públicas que envolvem os direitos das mulheres e outras causas que elas erguem bandeiras, a expressão feminina na política é tão importante quanto nas demais áreas.

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O panorama atual das mulheres chefes de estado e de governo está no relatório da ONU de 2020, e os países por ela liderados estão elencados na figura ao lado.

A participação de mulheres na política nos inspira pelo fato de abrir portas e nos aproxima da gestão pública, incentivando a presença feminina e, consequentemente, abre portas para a construção de um futuro mais realista e inclusivo. 

A Primeira Ministra Jacinda, por exemplo, foi a segunda líder mundial a engravidar e ter um filho durante o mandato, além de ser a Primeira Ministra mais nova em seu país desde 1856, fato que não a impediu de exercer as suas funções. Inclusive, Jacinda Ardern levou sua filha recém-nascida à Assembléia Geral das Nações Unidas em Nova York no ano passado e, rompendo mais barreiras, seu marido a acompanhou para cuidar da filha do casal enquanto a mãe e Primeira Ministra discursava para os demais Chefes de Estado.

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Jacinda Ardern na Assembléia da ONU acompanhada de sua filha e seu marido.

Cabe a nós, como disse @Michelle Duff na descrição da biografia da Jacinda, refletir: “por que ter um filho durante o mandato foi tão importante e o que isso diz sobre a luta por igualdade de gênero?”.

Não sei por vocês, mas para mim isso aproxima o lado humano bem como traz luz à realidade biológica das mulheres, sim, muitas engravidam e isso impacta diretamente na forma como o mercado de trabalho lida com a contratação e o percentual de desemprego entre mulheres e, principalmente, mulheres grávidas, sem contar, é claro, com diversos outros fatores, incluindo o social e cultural.

E esse lado humano e de proximidade da Primeira Ministra fica ainda mais real por conta de sua fala em uma de suas entrevistas à BBC acerca do anúncio de sua gravidez: “eu não sou uma super mulher e nenhuma mulher deveria esperar ser”. Afinal, não, nós não somos.

Quando perguntada sobre a pressão de exercer (e ser cobrada para tal) diversos papéis, e se sentia a pressão de ser tudo para tantas pessoas, a resposta foi cirúrgica: “eu acredito que TODAS as mulheres sentem isso. Eu não estou sozinha”.

E não é achismo a questão das mulheres no mercado de trabalho pois, segundo os indicadores de desigualdade global no mercado de trabalho para o ano de 2019, extraídos do relatório da Organização Mundial do Trabalho, a realidade de ocupantes no mercado de trabalho era de 74% de homens e 47% de mulheres¹. Se essa diferença já se apresentou em um cenário de relativa certeza, podemos imaginar a mudança desse cenário, em virtude da atual incerteza trazida pelo coronavírus.

Sobre a Primeira Ministra Jacinda, além dela estar presente nos noticiários e nos trazer questões importantes de liderança empática, bem como os aspectos positivos de mulheres na política, eu tenho um carinho especial por esse país por ter morado na Nova Zelândia quando fiz um intercâmbio cultural para estudo.

No ano passado houve um atentado às mesquitas de Christchurch, e esse atentado causou um enorme estresse aos habitantes, que não estão nem um pouco acostumados a tanta violência, sendo o país inclusive, o 2º mais pacífico do mundo segundo o Índice Global de Paz.

A postura da Primeira Ministra ao lidar com a crise foi humana e empática, ela tomou a atitude que se espera de uma Líder em situações de trauma e perdas, afinal, assim como a crise do Coronavírus, ambas as crises dizem respeito a salvar ou valorizar a vida, bem como as pessoas.

Não sei vocês, mas costumo me perguntar se a minha percepção sobre algum acontecimento é apenas por conta da minha própria vivência ou se é algo baseado em estudos, fatos e fico muito feliz que as questões de gênero estão sendo estudadas com mais intensidade há alguns anos e a forma de liderar da Jacinda foi objeto de análise de um estudo por pesquisadores de Cornell (EUA), como se vê abaixo:

“Pesquisadores de Cornell estudaram os comentários escritos e orais de líderes da Noruega, Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia após ataques em massa. Codificando cada frase de acordo com seu foco, encontraram que Ardern passou o maior tempo falando sobre o lado humano da tragédia, enquanto líderes homens devotaram mais atenção a questões pragmáticas, como logística e segurança pública.”²

Em entrevista à BBC ela disse: “It takes courage and strenght to be empathetic”³, que a sua tradução livre é “É preciso coragem e força para ser empático.” E acrescentou que a bondade e empatia são ensinadas às crianças, mas quando diz respeito à liderança política querem uma falta disso e ela diz estar tentando traçar um caminho diferente. Mas, para mim, o ponto alto da entrevista é quando ela fala “mas eu só posso ser verdadeira a mim mesma e com a forma de liderança que eu acredito”.

Estamos experimentando um novo tipo de liderança, a feminina, algo relativamente novo, pois ainda que no passado mulheres tenham governado, como no caso de rainhas, a liderança feminina pautado no traços de personalidade femininos se tornou, na opinião pública, algo positivo recentemente, pois, se esse universo sempre foi comandado por homens, como uma mulher adotando, inclusive, a postura feminina seria bem vista aos demais?

Tenho visto em várias reportagens que o perfil de liderança pós pandemia será o mais humano, empático e de compaixão. Isso é incrível, nos dá esperança que o futuro nos reserva maior representatividade e humanidade.

Por fim, deixo uma frase também da Jacinda que assim fala:

“Nós temos a responsabilidade como políticos pela linguagem que nós usamos, mas também pelas políticas que oferecemos e a esperança que nós entregamos”.

Obrigada!

Autora: Jéssica Nascimento Galvani.

  1. ILOSTAT, ILO modelled estimates, November 2019. World Employment and Social Outlook: Trends 2020 International Labour Office – Geneva: ILO, 2020. Disponível em: < https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/—dgreports/—dcomm/—publ/documents/publication/wcms_734455.pdf>. Acesso em: 13 de Abril de 2020.
  2. KREWEL, Mona e KARIM, Sabrina. Existe uma resposta “feminina” ao terrorismo. Tradução de Cecilia Inamura. Nexo Jornal, São Paulo, 16 de jan de 2020. Disponível em: < https://www.nexojornal.com.br/externo/2019/05/04/Existe-uma-resposta-%E2%80%98feminina%E2%80%99-ao-terrorismo> . Acesso em 14 de abril de 2020.
  3. ARDERN, Jacinda. 14 de nov. 2018. Nova Zelândia. Entrevista concedida à BBC Ásia. Disponível em: <https://www.bbc.com/news/av/world-asia-46207254/jacinda-ardern-it-takes-strength-to-be-an-empathetic-leader>. Acesso em 14 de abril de 2020.

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