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RT na arquitetura: o mercado que vive de bengala

Por Jéssica Galvani · Mercado e RT · 4 min de leitura

Resposta direta

A RT é vedada para arquitetos pela Lei 12.378/2010 (art. 18, VI) e pelo Código de Ética do CAU, e o mercado precisa se profissionalizar. Na prática, ela existe, mas não pode ser a base do faturamento. O maior risco é a cliente se sentir enganada: sentir que está pagando duas vezes, ou que você só indica aquele fornecedor porque ganha em cima, e não porque é o melhor para o projeto.

A lei é clara. A prática do mercado, não

Não é falta de informação. A lei existe, o CAU fala do assunto e já houve acordo com o Ministério Público para coibir a prática. Ainda assim, muita gente no mercado conta com a RT para fechar o mês.

E é aí que o problema deixa de ser individual e passa a ser do mercado inteiro.

Como a RT joga o preço de todo mundo para baixo

Funciona assim, na prática:

  1. O escritório cobra mais barato no projeto, apostando que vai recuperar no acompanhamento de obra e na RT.
  2. A cliente se acostuma com esse preço e passa a achar que projeto de arquitetura custa isso.
  3. O escritório que trabalha de forma profissional, sem RT, com o projeto cobrado pelo que ele vale, passa a parecer caro.
  4. Para fechar, todo mundo baixa o preço. E o mercado inteiro fica apoiado numa bengala.

É um mercado que vive de bengala: o projeto, que deveria ser o produto principal, vira isca para a comissão. E quem paga essa conta é a arquitetura como profissão, que perde valor.

O que isso custa para o seu escritório

  • O projeto nunca se paga. Você trabalha meses no projeto e depende da loja para fechar a conta.
  • O caixa fica na mão de terceiros. Quando o cliente finaliza, você não sabe como captar outro. E, se ele não fechar com todos os prestadores que você indicou, você estava contando com um dinheiro que nem é seu.
  • A cliente pode se sentir enganada. Ela paga o seu projeto e, sem saber, paga de novo embutido no preço da loja: sente que está pagando duas vezes. Ou passa a desconfiar de cada indicação: "eles só colocaram isso no projeto porque querem ganhar comissão". Eu falo do lado de quem já foi cliente: no mercado ninguém comenta, mas, entre nós, clientes, o assunto existe. E cliente de alto padrão indica, mas também desindica.
  • O escritório não aprende a vender. Enquanto a comissão tapa o buraco, preço, proposta e constância de clientes nunca entram na pauta.

Quem vive de parcela, de RT, sem fechar projeto novo, uma hora acaba. Pode ser uma gordurinha que anima o mês, mas não pode virar a muleta do negócio.

Profissionalizar: o projeto precisa se pagar sozinho

  • Precificar o projeto pelo que ele vale: escopo, tempo real, estrutura do escritório e margem.
  • Cobrar o acompanhamento de obra à parte, com escopo e limites claros.
  • Vender com processo: posicionamento, proposta apresentada numa conversa e clientes com constância, não só por indicação.
  • Ter caixa e pró-labore fixo, para nenhum mês depender de terceiros.
  • Indicar fornecedores pelo critério técnico, deixando isso claro para a cliente. Transparência vira argumento de confiança.

Um mercado mais profissional é bom para todo mundo: a cliente sabe o que está pagando, e o arquiteto é remunerado pelo projeto, não pela loja.

Na prática

A Luiza estava estagnada nos R$ 20 mil por mês. Com as propostas ajustadas, passou a cobrar pelo que entrega e hoje fatura igual ou mais com bem menos projetos. É isso que acontece quando o projeto passa a se pagar.

Estudos de caso relacionados

Perguntas frequentes

RT na arquitetura é crime? Para arquitetos, a RT é vedada pela Lei 12.378/2010 e pelo Código de Ética do CAU, e gera processo ético-disciplinar. Responsabilização civil ou penal depende do caso concreto.

Por que tantos escritórios ainda recebem RT? Porque o projeto, sozinho, não está pagando a operação. Sem preço justo, processo de venda e caixa, a comissão vira a forma de fechar o mês.

Posso indicar fornecedores? Pode e deve, pelo critério técnico. O que não pode é receber vantagem pela indicação.

Designer de interiores também é proibido? Designers de interiores não são registrados no CAU e seguem regras próprias (Lei 13.369/2016). O efeito no preço do mercado e na confiança da cliente é o mesmo.


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Jéssica Galvani, advogada especialista em negócios e fundadora da Elas Resolvem. Mais de 82 escritórios de arquitetura e interiores acompanhados no Brasil, em Portugal e no Paraguai.

Fontes: Engenharia 360 · Rota Jurídica

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